Mas 1814 é também o ano em que a configuração do centro histórico, anteriormente delimitado por diversos panos de muralha e respectivas portas, começa a mudar. Em 7 de Dezembro desse ano, a vereação procede à nomeação de peritos para «vistoriarem as portas da cidade, designadamente de Santa Cristina, S. José e S. Miguel, no sentido de dizerem se ameaçam ruína, se prejudicam o trânsito e se a demolição prejudica os prédios juntos» (Vale, 1966a); apesar da resposta afirmativa dos peritos quanto ao estado de ruína e à vantagem da sua demolição em três dos casos, estes ressalvam que tal «não sucede no Arco dos Albuquerques e no Arco dos Remédios que além da sua segurança antes aformoseiam a cidade» (Vale, 1949: 106). Em anos subsequentes novas vistorias seriam solicitadas até que o processo de destruição da quase totalidade das portas da muralha da cidade culminou no ano de 1867, com a demolição das portas de Nossa Senhora do Postigo, da Rua da Regueira e da Santa Cristina.
Após 1835, ultrapassado o período de instabilidade verificado durante as lutas liberais, Viseu vai conhecer uma série de melhoramentos urbanos, assumindo paulatinamente a sua condição de capital de distrito. Na 2ª metade do século XIX, sobretudo no último quartel da centúria, a cidade ganha desenvoltura, com novas áreas de expansão e uma maior racionalização do espaço urbano, apesar de carências de diversa ordem que subsistem, como o abastecimento de água, por exemplo. Surgem pouco a pouco novos arruamentos e novas centralidades. O espaço urbano vê as suas infra-estruturas incrementadas e o mobiliário urbano, seguindo as tendências de Lisboa, ganha importância e foros de cidadania. A iluminação pública faz a sua aparição, já em 1842, «com 56 lampeões».
Por outro lado, a cidade ganha consciência da sua própria topografia e áreas de expansão com a planta de 1864, solicitada pela comissão de melhoramentos da cidade e indispensável ao planeamento urbano. Paradigmático duma nova visão da cidade seria o ambicioso «plano de obras municipais e meios de o levar a efeito», apresentado a 24 de Maio de 1876 (Vale, 1967a: 237-238).
E, no terreno, ganham estatuto regular serviços como a limpeza, atribuída aos «acendedores dos lampeões da iluminação» (Vale, 1966b: 458), bem como o serviço de incêndios, precariamente iniciado em 1827. Ou ainda regras de ordenamento urbano, como a postura de 1844, proibindo obras de reparação ou construção de edifícios sem prévia aprovação do risco.
Entre a década de 50 do século XIX e a viragem do século, surgem novas artérias estruturantes da vivência urbana e o centro histórico alarga-se. A actual Rua Formosa é iniciada em 1859; e, apesar de diversas polémicas, a Rua do Comércio faz a sua aparição, e afirmando doravante a centralidade comercial da área e uma ligação da Praça Luís de Camões (actual Praça D. Duarte) às novas artérias. Por outro lado, junto ao Adro da Sé, consegue-se a ligação ao Campo da Feira através da abertura da Calçada de Viriato, em 1858; paralelamente, surge a actual Rua Maximiano Aragão.
Outras ruas já existentes conhecem os melhoramentos possíveis, como no caso da Rua da Regueira, alinhada e alargada durante o ano de 1867, graças a diversas demolições, ou ainda da Rua Direita, calcetada a partir de 1871.

A cidade vê também surgir diversos equipamentos estruturantes. A esse nível, destaca-se naturalmente a construção do novo mercado 2 de Maio, decidida em 1877 e realizada entre 1879 e 1880 (fig. 2); ou, por exemplo, as obras no edifício destinado à Escola do Ensino Mútuo, na Rua Direita, em 1866. E, já fora do centro histórico, vai surgir o novo cemitério, previsto desde 1844, e situado junto ao novo Hospital da Misericórdia; este seria, por sua vez, ligado ao bairro de Cimo da Vila, intervencionado em 1863.

 

Fig. 3.16

  Fig. 3.16 | Mercado 2 de Maio (postal editado por A. Ferreira; anos 20)

 

 

O espaço público também é objecto de algumas medidas, como por exemplo, a plantação de árvores em zonas como a Santa Cristina e o Rossio desde 1840, num processo que tem um ponto alto na inauguração da actual Praça da República como passeio público, sob a denominação de «Rossio del Rei D. Fernando», a 29 de Outubro de 1845. Numa outra fase, destaca-se o «aformoseamento» do Largo de Santa Cristina, em 1867, altura em que é aberta a Estrada de Mangualde, artéria fundamental nos acessos à cidade.
Entretanto, ao longo de Oitocentos, os serviços da administração municipal tinham circulado por diversas zonas, sem local definitivo: em 1835 instalaram-se no edifício do Seminário e, em décadas posteriores, ocuparam diversos edifícios no centro histórico, inclusive o velho Paço dos Bispos, junto à Sé. Finalmente, em 1877 é aprovado o projecto do novo edifício dos Paços do Concelho, da autoria de José de Matos Cid: num processo concluído apenas na viragem do século, o coração administrativo da cidade transfere-se definitivamente para o antigo Rossio de Massorim, actual Praça da República.
Na década de 80 colocam-se novos desafios ao desenvolvimento da malha urbana, com as necessárias ligações à projectada estação do Caminho de Ferro, assumindo relevo a Avenida Emídio Navarro, apesar da alteração do local da estação e, já em 1893, a actual Rua Capitão Homem Ribeiro.
Em inícios da centúria seguinte, concretiza-se o alargamento do núcleo urbano para a área da Quinta do Massorim; entre 1901 e 1904 dá-se a aquisição dos terrenos da quinta e a sua divisão em parcelas, das quais surge o Bairro do Massorim.

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