Em 1863, segundo Vilhena Barbosa, o brasão tinha a seguinte composição : "escudo dourado, e nele um Castelo de prata em campo azul, banhado por um rio. Tem de um lado do Castelo a figura de um homem em trajos de peregrino, tocando uma buzina, e do outro lado um pinheiro".

"Achamo-lo ainda descrito por outro modo, consistindo a diferença em se achar sobre as ameias do Castelo o homem que toca a buzina". Esta segunda versão é a que hoje vigora e em relação à descrição feita, apenas a alusão ao rio não consta. Seja como for é ainda na lenda contada por Garrett que se pode beber a simbologia do Brasão de Viseu:

"D. Ramiro II, Rei das Astúrias e de Leão, que reinou desde o ano de Cristo de 931 até o de 950, n'uma excursão que fez de Viseu, onde então residia, por terras de moiros, viu e enamorou-se da famosa Zahra, irmã de Algozar, rei moiro, ou alcaide do castelo de Gaia sobre o rio Douro. Recolheu-se D. Ramiro a Viseu com o coração tão cativo, e a razão tão perdida, que sem respeito aos laços, que o uniam a sua esposa D. Urraca, ou como outros lhe chamam D. Gaia, premeditou e executou o rapto de Zahra. Em quanto o esposo infiel se esquecia de Deus e do mundo nos braços da moira gentil n'um palácio à beira mar, o vingativo irmão de Zahra, trocando afronta por afronta, veio de cilada, protegido pela escuridão de uma noite, assaltar e roubar nos seus próprios paços a rainha D. Gaia. A injúria vibra n'alma de Ramiro o ciúme e o desejo de vingança. O ultrajado monarca vão à cidade de Viseu, escolhe os mais valentes d'entre os seus mais aguerridos soldados, e la vão á sua frente caminho do Douro. Chegando à vista do castelo d'Algozar, deixa a sua corte oculta n'um pinhal, e disfarçado em trajes de peregrino, dirige-se ao castelo, e por meio de um anel, que faz chegar às mãos de D. Gaia lhe anuncia a sua vinda. O peregrino é introduzido imediatamente à presença da rainha, que fica a sós com ele. Algozar tinha ido para a caça. D. Ramiro atira para longe de si as vestes e barbas, que o desfiguravam, e corre a abraçar a sua esposa. Esta porém repele-o indignada, e lança-lhe em rosto a sua traição. No meio de um vivo diálogo de desculpas de uma parte, e de recriminações de outra, volta da caçada Algozar. D. Ramiro não pode fugir. Já se sentem na sala conjunta os passos do moiro. A rainha, parecendo serenar- se, oculta o marido n'um armário, que na camara havia. Mas apenas entrou Algozar, ou fosse vencida d'amor por ele, ou cheia d'odio para com o esposo pela fé traída, abre de par em par as portas do armário, e pede vingança ao moiro contra o cristão traidor. D'aí a pouco era levado el-rei D. Ramiro a justiçar sobre as ameias do castelo. Chegado ao lugar de execução pediu o infeliz, que lhe fosse permitido antes de morrer despedir-se dos sons acordes da sua buzina. Sendo-lhe concedida esta derradeira graça, D. Ramiro empunha o instrumento, e toca por três vezes com todas as suas forças. Era este o sinal ajustado com os seus soldados, escondidos no próximo pinhal, para que, ouvindo-o, lhe acudissem apressadamente. Portanto n'um volver d'olhos foi o castelo cercado, combatido, tomado, e depois incendiado. A desprevenida guarnição foi passada ao fio da espada, e Algozar teve a morte dos valentes: expirou combatendo. E D. Gaia, como ao passar o Douro para a margem oposta, se lastimasse e mostrasse dor, vendo abrasar-se o castelo, foi vitima também do ciúme de D. Ramiro que cego d'ira a fez debruçar sobre a borda do barco, cortando-lhe a cabeça de um golpe d'espada. Á fortaleza em ruínas ficou o povo chamando o castelo de Gaia, à margem do rio, onde aportou o barco de D. Ramiro, deu-lhe o nome de Miragaia, em memória daquele fatal mirar da misera rainha".

Esta é pois a lenda que se presume ter dado origem ao Brasão de Viseu. Temos assim que o Castelo representa o de Algozar, o tocador de corneta, o rei D. Ramiro e a árvore, o bosque em que se esconderam os habitantes de Viseu. Lenda ou fábula ela representa uma forma de interpretação e por ser carregada de antiguidade merece bem que se respeite como tal. Mas fazendo fé em Vilhena Barbosa, nem tudo será hipotético porque "D. Ramiro II roubou a moira Zahra, irmã ou filha d'Algozar, a qual se fez cristã, tomando no batismo o nome de Atrida ou Artiga. Repudiando a rainha D. Urraca, casou segundo uns, ou viveu amancebado segundo outros, com Zahra de quem teve um filho, chamado D. Algozar Ramires que foi o primeiro fundador do Mosteiro de Santo Tirso".

O atual Brasão do Concelho de Viseu, que em esqueleto é a continuidade do primitivo foi aprovado pela Portaria n.º. 9552, publicada no Diário do Governo n.º. 135, I série, de 13 de Junho de 1940 com a seguinte redação: 

"Atendendo ao que foi solicitado pela Câmara Municipal de Viseu e tendo em consideração o parecer da comissão de heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses: manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Interior, aprovar, nos termos únicos do artigo 13º. do Código Administrativo a constituição heráldica das armas, selo, bandeira daquele Município, que é o seguinte: Armas: de prata com o castelo de vermelho aberto e iluminado de ouro, tendo a primeira das torres laterais rematada por um homem vestido de negro tocando buzina de ouro, e a outra torre lateral rematada por uma árvore de verde sustida de negro e frutada de ouro. Coroa mural de prata de cinco torres. Listel branco com os dizeres: "Cidade de Viseu". Selo: circular, tendo ao centro as peças das armas, sem indicação dos esmaltes. Em volta, dentro dos círculos concêntricos, os dizeres "Câmara Municipal de Viseu". Bandeira: quarteada de quatro peças amarelas e quatro de vermelho. Cordão e borlas de ouro e vermelho. Lança e haste douradas".

"Tradições de Viseu", "Histórias da História. O Brasão de Armas de Viseu", Câmara Municipal de Viseu, 1989