As origens de Viseu, antiga e nobilíssima cidade, perdem-se nas brumas do tempo.

Aqui estanciaram homens das Idades remotas da pré-história e conviveram Celtas e Lusitanos. Aqui se fixaram os Romanos em séculos de prosperidade e paz e por aqui passaram com maior ou menor detença hordas dos povos invasores: Suevos, Godos e Muçulmanos.

No tempo dos Suevos, em meados do século VI, já Viseu tinha os seus bispos. Mais tarde, porém, com a chegada dos Muçulmanos e a derrocada do reino visigodo, o receio das violências dos infiéis obrigou-os a tomar o caminho do exílio e a refugiar-se nas longínquas montanhas das Astúrias. Seguiu-se um longo período nebuloso e trágico, raramente clareado por breves lampejos de paz.

Mudando frequentemente de mãos, ora em poder de cristãos, ora de maometanos, apenas no ano 1058 a cidade de Viseu, graças à arremetida vitoriosa de Fernando Magno, rei de Leão, logrou recuperar, definitivamente, a sua liberdade. Mas tão desmantelada ficou e foram tão fundas as feridas da rude ofensiva leonesa, que somente em 1147/1148, cem anos após a reconquista, estava a Diocese em condições de sustentar um bispo próprio. Durante tão longo interregno pontifical, foi a Diocese governada pelos Bispos de Coimbra, por intermédio de Priores, o mais célebre dos quais, pelas suas virtudes, foi S. Teotónio, patrono atual da Cidade.                           

 Afastado para longe o perigo das razias mauritanas, pôde a população, enfim, radicar-se sem sobressaltos e a Cidade refazer-se das cicatrizes e prosperar, de tal modo que, segundo Jaime Cortesão, foi Viseu um desses velhos centros urbanos que " rapidamente recuperaram o brilho transitoriamente perdido ou recrudesceram em atividade e diferenciação social ". Foram mais de três séculos de paz laboriosa e fecunda, brutalmente quebrada por fim, após 1383, quando, morto El-rei D. Fernando, o rei de Castela tentou fazer valer, pela força das armas, os seus direitos ao trono de Portugal. Então por ter seguido o partido do Mestre de Avis, passou Viseu a ser um dos alvos preferidos dos " corredores " castelhanos: mais de uma vez saqueada e queimada, a população escapou por milagre à chacina, barricando-se na Sé.

Cidade indefesa, à mercê das investidas castelhanas, foi das terras portuguesas que mais sofreu, para que Portugal continuasse livre. Teimou em sobreviver qual nova " fénix ", ressurgiu das próprias cinzas mal começava a despertar no horizonte a alvorada de concórdia entre as duas nações peninsulares.

Protegida por uma cinta de muralhas, servida por sete portas, a cidade desenvolveu-se como nunca, alindou-se. Levantou as abóbadas da Catedral, chamou Grão Vasco para seu vizinho e, orgulhosa de si, mandou esculpir nos portais, nas janelas e nas cornijas das suas casas, em custosos e artísticos lavores, os sinais da sua prosperidade. É por isso que a cidade de Viseu pode justamente orgulhar-se de possuir, ainda hoje, um dos mais belos conjuntos do país, de casas, portais e janelas dos estilo gótico e manuelino, dispersos um pouco por todos os recantos, sobretudo nas típicas ruazinhas aconchegadas à Catedral.

Dada a perda da independência com a Batalha de Alcácer Quibir, a nação ficaria gravemente ferida, sem rei e sem honra. Porém, a partir de 1 de Dezembro de 1640 renasce com o ouro e pedrarias raras provenientes dos descobrimentos nos confins do Brasil.

Uma febre alta de renovação iria agora contagiar o país de lés-a-lés. Os artífices dos mais variados mesteres não terão mais os braços ociosos, insistentemente requeridos aqui e ali, presos aos seus compromissos. Capelas, igrejas, fontanários e velhos solares musguentos e bisonhos, alguns do tempo dos afonsinhos, tudo se refez ao impulso do novo estilo, com janelas de molduras e aventais lavrados, amplos salões luminosos, fortes cornijas onde antes, urnas e pináculos esquisitos implantados nos cunhais, gordas pedras de armas arrogantes, pesadamente coroadas.

Viseu, cidade de existência mais que milenária, não podia deixar de refletir no seu rosto vetusto o testemunho da passagem das sucessivas gerações e estilos artísticos. E eles aí estão, de facto, tais testemunhos: monumentos artísticos de todas as idades, felizmente poupados ao impiedoso desgaste dos séculos.